quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
'Eu gostava de poesia, só depois fui me aproximar da ficção'
Várias línguas já haviam sido cortadas. O sol trazia atônito, mais um dia com ruas cheias de línguas e, ao seu redor, poças de sangue, numa cidade cada vez mais espantada. O crime monstruoso chocava a todos, mas era sempre um choque tardio, pois que, sem língua, tudo era só grito e todo grito era previsto.
Letargia.
O choque se desdobrava em vazio horizontal, suicídios e, às vezes, risadas tristes ou alegres.
Domingo, 23, ocorreu algo diferente, diferente. Diferente.
Os bois comeram alguns homens. O cinema voltou a ser adocicado e rupestre, mais do que tudo, os anjos, os anjos fodiam entre si, e cada foda era água nova pela assexualidade trazida pela resposta negativa de cada foda, mas essa água se dividia em duas no seu esporro, vindo da dor no membro inexistente. Essa água era dupla desmedida que se fazia cristalina, e outra além de negativa, uma cachoeira/hidrante-aberto-por-pivetes era o que saia dos anjos desiludidos. Pronto, anjos que queriam água espessa (cachoeira/hidrante-aberto-por-pivetes), seriam agora camundongos hipertensos, para sempre insatisfeitos.
Os vermes habitavam os restos das línguas dentro das bocas, agora, apodrecidas da gente da cidade. Ainda assim, o nariz inventava um som. Era um som grande e forte de nozes e dos vermes que estavam na língua e, de vez em quando, subiam da boca ao nariz. Talvez fizessem isso pelo som metafórico e voador que sai do nariz, talvez quisessem voar, talvez quisessem ser metáforas voadoras, talvez quisessem apenas se precipitar, em todos os casos estavam no som.
A cidade o prédio o mar, que devorou os anjos, não todos, só alguns.
domingo, 10 de janeiro de 2010
Quase-anedota
-Nós, burgueses, estamos absolutamente despreparados para este tipo de situação.
O número 3 responde:
-Eu não sou burguês. Estou despreparado, mas não por ser burguês.
Referir ou diferir?
Uma multiplicidade se aloja na longa esteira do olhar duplo. Homem-maquina tecendo arbitrariedades e desejando o entre das heterogeneidades. Desejo sempre submerso pela força do movimento dissipador deste entre. (Como origem a fonte se afoga, como fenda sem força que não funda). Desejo movimento. Nomadismo ambulante.
Se algo me deixa alegre e vivo é, sempre, pelo sofrimento que me causa. Não um sofrimento de martírio, mas, sim por um descontentamento irreconciliável (é pela necessidade, então, que nos deslocamos), que é afinal o lugar onde se articula a possibilidade para por toda questão, necessariamente tremida, sem foco, só jogo, sem resolução, nem visibilidade de verdade. Sem antes, nem anti.
Adiantar-me, precipitar-me, numa precipitação que lambe todo limite e sente seu gosto-outro, e sabe de maneira doentia (que é a maneira do discurso outro) desejar este gosto, para além de conhecê-lo. O que é isso se não um desejo ilegítimo, (vindo sei lá de onde, ou nascido desta precipitação, sendo esta precipitação sem nascedouro. Precipitação.) de desafirmar, sem, porém, cair na pura oposição dicotômica re-afirmadora do discurso, ele mesmo. Desafirmar ele mesmo, só sendo ilegítimo. Desafirmar o legitimo, a possibilidade possessiva e opressora da legitimidade.
Certa ponte-espiral, que foi levada por aquela última chuva forte, já se precipitou (claro, em espiral). Agora, posso.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Tarefa de Ruminação: leitura, interpretação e notas acerca da "Genealogia da Moral" (ainda inconcluído, e talvez, para sempre)
<<Se este livro resultar incompreensível para alguém, ou dissonante aos seus ouvidos, a culpa quero crer, não será necessariamente minha (...) a forma aforística traz dificuldades (...)para a qual se requer uma arte da interpretação>>
Com isto, Nietzsche não nos dá apenas a dica de como ele quer que seja lida a sua obra, mas também - e, sobretudo- o que ele quer com a sua Genealogia. Para isso, o próprio também nos deu algumas dicas: <<Necessitamos de uma crítica aos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão>>.
E também:
<<Não existem coisas que mais compensem serem levadas a sério; sua recompensa está, por exemplo, em que talvez se possa um dia levá-las na brincadeira, na jovialidade>>.
"Fazer crítica", e para isto Nietzsche sabe muito bem, é preciso ir até os elementos históricos, documentais, como diria Foucault parafraseando o próprio N - a genealogia é cinza...
Mas é preciso mais que tudo - e a isto o sentido histórico vem a servir - situar-se dentro da vida: <<Nas experiências presentes, receio, estamos sempre "ausentes" - Aforisma 1 do Prólogo>>. E por isso se disse: NECESSITAMOS de uma crítica.
Então o que aparece como apenas uma pergunta, se mostra essencial e ganha contornos de uma reconhecida cânone nietzscheana: a vida não pode ser entendida a partir da moral e da compaixão. Torná-las um problema vem a ser um rigoroso trabalho de destruição, porém, uma arquitetônica destruição. Pergunta-se então: O que significa situar-se dentro da vida?
No prefácio assim está escrito: <<não mais busquei a origem do mal por trás do mundo>>. Em substituição a isso, coloca-se:
<<
Não mais buscar atrás do mundo. Nos primeiros aforismos da primeira dissertação, aponta-se sarcasticamente à pesquisas empreendidas em direção a um lado vergonhoso do próprio humano. O grande incômodo de Nietzsche é ver nesses pesquisadores toda uma inércia coercitiva, em que na mesma tendência em que surge a moral - o valor moral como negação absoluta de valores, negação contra hierarquias - esta mesma tendência permanece no entusiasmo destes pesquisadores, que buscam no lugar errado a solução para a origem dos valores morais. Nietzsche aponta então a sua verdade, e também o seu método: ao longo da primeira dissertação encontrei ao menos 3 métodos com os quais N. instrumentaliza a sua pesquisa, são eles: a etimologia (filologia), o sentido histórico -estes dois primeiros vindo a se confundir entre si-, e por último a valoração. Esta, a pedra filosofal de Nietzsche, seu método fundamental. Com a valoração, e somente com ela, é que este filósofo ao fazer pesquisa histórica e ao estudar a etimologia das palavras, pode chegar às conclusões de suas obras, mais propriamente desta Genealogia. Com ela, N., para tudo que olhava, se perguntava: há força nisto? Isto promete vida? Isto propaga crescimento, ascensão?
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A primeira dissertação empreende uma distinção de tipos que são de grande importância dentro do pensamento de Nietzsche. Ele fala do nobre, contrapondo o vulgar, fala do ressentido e do sacerdote, contrapondo ao guerreiro. Tais distinções, como se sabe, são estamentais, mas é um traço espiritual que deveras importa: Segundo um traço típico de caráter: e é este o caso que aqui nos interessa. (af.5)
Até o aforisma 6, Nietzsche traça a distinção básica no modo de valorar "superior". E apresenta, ainda no 6, o sacerdote, o tipo "impotente", que constitui o passo decisivo da interiorização do homem, que torna-o interessante (acerca do tema da interiorização do homem, a segunda dissertação me parece tratar mais de perto).
<<Na história universal, os grandes odiadores sempre foram sacerdotes, também os mais ricos de espírito>>
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A tese de que um genealogista não deve mais buscar a verdade "por trás" do mundo é a constatação - e a confirmação - da prevalência do aparecer tal qual oss gregos entendiam. (Seria interessante, porém incabível aqui, realizar a aproximação entre este pensador e a fenomenologia). Em lugar do "por trás" do mundo, Nietzsche foi até às invenções e ao solo propício para que elas se realizassem. A partir disto, somente, é que se poderia ver o erro das pesquisas que imbutiam na moral a utilidade, o esquecimento e não viram nelas algum tipo pervertido de valor - ou desvalor - e só então prosseguindo com a questão do valor (e não mais da moral) que se poderia entender as transformações, as decadências e inversões que desaguariam na fundamentação moral.
Então pergunto: o que há de tão fétido e irregular na moral, que mereça sua destruição, humilhação e por fim, comédia?
Respondo: É que entendendo vida enquanto vida não há nada advindo de outro lugar, outra parte que não dela mesma, que tenha autoridade para julgá-la, e o resultado disto é um modo de valorar (ou de viver) sempre desigual, múltiplo, por vezes cruel, e sobretudo sem salvação.
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sábado, 12 de dezembro de 2009
Trecho de uma monografia ...
O problema com a tradição é evidentemente o problema do fundamento. Esta, segundo Heidegger, deixou que imperasse sem resolução se o problema do fundamento era também o problema da razão suficiente. “O princípio da Razão parece, como um princípio supremo recusar de antemão algo tal como o problema do fundamento” (HEIDEGGER, 1989, pag. 89). Vendo este problema sem resolução, Heidegger conduz o problema da razão ao caráter não predicativo; é porque a razão para se sustentar apelava para si uma noção de verdade como adequação à coisa – podemos até mesmo dizer que nisto opera uma redução do lógos – ou seja, a verdade é uma dedução propositiva que faz concordar palavras e coisas. Verdade proposicional apela para o uso da gramática, que por sua vez opera sobre as estruturas de sujeito e predicado, p. ex: a casa é azul. Mas com isso, tal tradição mantém intocado um problema de entender, deste predicado, seu caráter para além de mero predicativo do sujeito, já que se manterão intactas duas relações nominais, no exemplo a casa e o azul; o predicativo é exatamente a copulação. Entender o que é o predicativo e como acontece o predicativo é que passa despercebida, bem como de que modo uma coisa que tem estrutura nominal pode ser ao mesmo tempo predicado por outro nome. Conduzir então para um momento não predicativo seria adentrar no âmbito da revelação; falando em grego estamos no âmbito da physis, das coisas em seu aparecer, irromper, das coisas em sua transcendência.
(...)
A festa do pensamento, sua força originária e seu pleno vigor, não são como muito se acredita, em poder fazer uso das coisas, de apropriar-se e relegar todas as coisas a um certo utilitarismo, ao formalismo logicista, mas em, num movimento contrário, se lançar nas coisas. Não se trata de mera representação. O pensamento que apenas representa mantém oculta a presença em seu aparecer, que é justamente sua essência. Seria como dizer que, num mundo onde as coisas estão prontas, onde as coisas têm especificidade e finalidade pré estabelecidas, onde o sentido está noutro lugar que não na presença, este mundo é menos mundo, simplesmente porque é incapaz de enxergar nisto que é unicamente o lugar da essência - uma atividade e um agir finitos – o espaço do possível necessário. E tudo isto diz a compreensão de transcender, quando é capaz de enxergar uma unidade de co-pertencimento originário entre fundamento e liberdade a partir da finitude. Na emergência do ser, depara-se com a não medida das coisas e com seu velamento[1], um aparente e ingrato nada que esconde todas as possibilidades, um não que não é nem um pouco negativo ou privativo. Neste nada, nada se priva.
[1] No original em alemão, Unwesen, que na edição consultada para este trabalho é traduzido ora por não essência, ora por desordem. Para problemas com a tradução foi consultado Inwood, Michael. DICIONÁRIO HEIDEGGER Rio de Janeiro. Jorge Zahar. 2002
sábado, 5 de dezembro de 2009
Recorte de uma história provisória.
Vamos então, a partir do recorte feito no título, pensar algumas destas questões.
Esse vazio na filosofia e da filosofia é chamado de niilismo. O niilismo foi o movimento, foi o grande acontecimento que possibilitou a passagem-ruptura da filosofia moderna para a filosofia contemporânea, foi ele quem criou esta passagem-ruptura, mas, isso não se deu, como já fizemos alusão com o termo passagem-ruptura, de modo linear e tranqüilo, foi, ao contrário, de modo violento, impositivo, destrutivo, para usar um termo que parece ser o traço mais marcante do niilismo. O filosofo que, ao mesmo tempo, viveu e construiu (mas não construiu nem viveu sozinho, que fique claro) tal acontecimento é Friedrich Nietzsche, mas ele não só viveu e construiu tal acontecimento nem, também, só viveu e construiu a passagem-ruptura entres estes dois mundos filosóficos, como tentou sempre ter papel ativo em tudo. Tentou, e, podemos dizer, ainda tenta, sempre responder de maneira afirmativa e criativa a tais acontecimentos (iremos ver também o que é para Nietzsche formular tais respostas e porque elas devem ser formuladas), por tudo isso, ele é a pedra inicial e fundamental para montarmos nossa ruína.(ruína não tem aqui o sentido de destruição negativo ou pessimista, e sim, de estado desarticulado e desestruturado da nossa filosofia contemporânea).
1. De uma possível História do niilismo
Aqui é necessário uma definição inicial e provisória do que vem a ser niilismo, apenas suficiente para seguirmos adiante, já que tal definição só será possível em sua complexidade, com o desenrolar do texto e do desdobramentos de suas reflexões. Podemos, inicialmente, procurar a definição etimológica do termo. Vamos ao livro O Niilismo de Franco Volpi, “Etimologicamente significa – do latim nihil (nada) – é o pensamento obcecado pelo nada” (O Niilismo, de Franco Volpi, pág 9). Essa definição remota, inclusive e necessariamente, a tempos anteriores ao de Nietzsche. Poderíamos então, mais uma vez, como faz Volpi, nos transportar para o início da reflexão sobre este tema, ai, encontraríamos Górgias no seu discurso sobre a impossibilidade efetiva da existência de qualquer coisa, já que só existe o que passível de conhecimento e, no fim das contas, mesmo se conhecêssemos, o que não é possível, não poderíamos comunicar nada, logo, não é possível que nada exista para mim, nem poderá existe pra mais ninguém. Faço esta lembrança só para demonstrar o quão longe vai a reflexão sobre o niilismo, como ele é extenso e se atualiza sempre de acordo a sua necessidade de sobrevivência e fortalecimento, uma atualização que inclusive, não se remete, necessariamente, a uma origem. Quando nos deparamos com o niilismo, sua extensão, e com a tentativa de defini-lo quase damos razão a Górgias, impossível de conhecer, por isso, impossível de comunicar, impossível de existir. Mas ao contrário, e pela situação mesma de nossa filosofia hoje vemos que mesmo sendo árduo o trabalho para uma possível definição e exposição, ele não só existe concretamente, como a partir, do seu caráter de auto-atualização e fortalecimento, ele nos sufoca hoje, deixando este gosto amargo na nossa boca, sujando toda palavra que sai dela, e um ardor nos nossos olhos, não permitindo um esforço maior para vermos alem da fumaça densa. Mas o niilismo que nos deixa assim, o contemporâneo, não é o mesmo do Górgias. Vamos então a caça dos seus traços.
Seguindo o rastro desta história (uso o conceito de rastro no sentido derriadariano, como rastro de uma ausência, ou seja, quando se busca o autor de tal rastro não se encontra, só se encontra o rastro diferido, “... Da saída para fora da clausura deste esquema procurei eu indicar o alcance através do rastro, o qual é tanto menos um efeito quanto não tem causa ..." - Margens da Filosofia - A Diferença, pag 41), podemos começar uma aproximação com o escritor russo do séc. XIX Turgueniev, que se dizia o criador do termo, mas como já vimos, esta é uma afirmação falsa já que tal termo, e seu uso, já aparecia em reflexões muito anteriores à suas. O que temos de novo em Turgueniev é a sua sensibilidade para relacionar o sentimento radicalmente destrutivo de seu tempo com o termo que melhor falava este sentimento e desejo, o niilismo.
No seu livro "Pais e filhos" ele faz uma apologia do niilismo como um tipo de teoria e ação política, isto viria a ser chamado niilismo político russo. Era então uma atitude destrutiva radical e irrestrita de valores que conservam a ordem estabelecida da sociedade russa. No livro vemos um confronto de gerações, entre um pai que de maneira reformista e sendo influenciado pelas idéias humanistas tradicionais e o filho que, nas palavras de Volpi( Idem, Cap 2, pag 11) "rebelde, materialista e sem ilusões" entram em confronto sobre como agir diante da situação russa. No personagem do filho, Turgueniev, retrata o pensamento político que estava nascendo com muita força em sua sociedade. Segue-se a este livro, de uma sensibilidade aguda em relação à situação histórica-política de sua época, uma série de acontecimentos onde esta teoria se transformou em ação radical contra todo valor e convenção. Esses acontecimentos tiveram influência também sobre o que Nietzsche pensou sobre o niilismo. Mas antes de chegarmos a Nietzsche, vamos ao primeiro uso filosófico do termo, para mostrar, o que em Nietzsche se torna sólido e o que será radicalizado, mas também, repensado por Nietzsche, dependendo de seu interesse.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Um documentário é, sobretudo, um filme de memória. A montagem dessa memória é onde reside toda a graça e toda a discussão em torno de um documentário, seria por esse caminho que muitas vezes devemos decidir: um documentário também é ficcção. Bem como tudo que tem memória. Ou melhor, tudo o que se utiliza da memória. Ficção por ser uma construção a partir de lembranças, porém igualmente montagem, igualmente criador.
Este trata-se de um artista, de um poeta. Mas um poeta com duas faces, com duas idades. O jovem poeta, eternizado nos shows, no suor. E o atual poeta, na cadeira, voz grave, sério, porém sereno, porém poeta. Aonde situar tal ambiguidade? É claro que toda esta dupla situação [um antes, um depois], remete a uma ruptura, um fato, o acidente...mas tudo o que esta memória fez o favor de construir não foi na e pela ruptura, mas sim um sentido geral, de caminho [longo caminho...] do Herbert. Poderia ser melhor pensar em uma linha descontínua, porém remendada, mas sob a perspectiva da memória só há uma linha e é sobre esta linha que seguimos.
Talvez houvesse uma tragédia anunciada, o jovem garoto que tinha o sonho de voar mas que virou músico. Mas que virou músico com todos os tons de casualidade e fatalidade, pois o Herbert não decidiu ser músico, ela simplesmente veio até ele, cobrou dele e continua a cobrar por toda a vida. E pela música ia encontrando aquela salvação, aquele caminho de realização. Se o óculos o proibiu de tornar-se piloto, o que certamente era uma frustração, era canalisado para a música com toda a máscara do cômico e da leveza:
"Se as meninas do Leblon
Não olham mais pra mim
(Eu uso óculos)
E volta e meia
Eu entro com meu carro pela contramão
(Eu tô sem óculos)"
A leveza e a jovialidade podem ter sido a marca dos Paralamas, mas é inegável certo amadurecimento nas letras compostas pelo Herbert, e também no próprio som da banda. Em algum momento no meio do caminho da carreira do trio houve-se as seguintes palavras numa canção: O céu de Ícaro tem mais poesia que o de galileu. Esta contraposição entre a poesia (o mito de Ícaro) e a ciência (Galileu e suas teorias), evidenciam o compositor situado na tarefa do dizer poético, dos afetos, de uma vida pulsante:
"Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu"
Mas o lugar central da memória está ligada a um sentido que se desenrolou não desde o princípio da carreira, e que diz respeito a construção de uma vida íntima. Não se desvaloriza com isso todas as diversas possibilidades expressadas nas músicas, como a identificação com o social - os ritmos, a língua -, a contestação, a fusão com o rock argentino; um bom exemplo para isso é o disco 9 Luas, que englobam toda esta variedade. Porém o lugar central é de um amante, um amante que voava, tal qual o próprio Ícaro. Este mito diz respeito à superestimação de si e à subestimação da vida, dos perigos da vida, esta que é tão frágil. Tal mito possuia para os antigos, para os jovens da antiguidade, uma finalidade pedagógica, quase uma moral. Mas não é este o caso quando se comparado à vida do Herbert. Se olharmos a partir de sua própria visão, veremos que era este o caminho, ou o vôo, que deveria ser traçado. Alguém que age de má fé é alguém que não corresponde ao desenrolar de suas próprias ações, uma não aceitação, uma revolta. Alguém que não tem memória não age de má fé. E é este o ponto: Herbert possui a memória. Acordou, ainda sabia fazer música, permaneceu o poeta, e poeta o que é que faz? Herbert se revoltou? Não. Seria inútil perguntar se para ele dói, se ele preferia que nada daquilo tivesse acontecido, como seria se....É essa a diferença, o camarada que faz a partir de, está sempre no sentido. O camarada que não corresponde aos fatos, paralisa. Herbert numa cadeira de rodas cobre mais distâncias que a maioria dos que estão sobre duas pernas. Não cabe aqui aquele velho problema da moral, de duvidar de tudo aquilo que se anuncia bem e bom e todas as consequências disto. A questão aqui é o da memória. O documentário - a ficcção - é a memória do Herbert. É este o grande barato. E em se tratando da memória fica cada vez mais evidente que há a possibilidade de separar a memória em duas: a boa memória e a memória boa. Esta última não paralisa, nem sobre uma cadeira de rodas. A memória boa está sempre ligada ao prazer, talvez ao sentido também. Prefiro sempre pensar no Herber de agora, cantando com seu violão: quero te ver de perto/quero dizer que o nosso amor deu certo. E lembrar que esquecer é morrer, e lembrar pode ser viver.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Hélio é fogo!
Hélio é fogo! Piada que não tem graça, só chamas e possibilidades, falamos do artista plástico Hélio Oiticica, mas poderíamos falar do gás (que é um dos mais difíceis de ser solidificado - signo Hélio -), como poderíamos falar do sol (significado da palavra Helio em grego).
O incêndio que destruiu boa parte da obra de Helio Oiticica não é mensagem de uma verdade guardada a sete chaves a muito tempo, que se insinuou em sua obra e agora tal acontecimento vem reforçar, mas, se tratando de Hélio Oiticica também não pode ser encarado como um fato qualquer. É um acontecimento. Um acontecimento que pode ser valorado como contendo forças das quais a obra de Helio sempre se notabilizou em criar.
Hélio se insurgiu contra certo racionalismo e purismo na arte brasileira, com muito rigor e experimentação. Era um dos mais jovens e vigorosos artistas do neo-concretismo. Rigor e experimentação para esses artistas nunca funcionaram como extremos, o próprio grupo surge também dessa necessidade de re-fortalecimento da experiência sensitiva e singular dentro do horizonte da radicalização conceitual em relação ao objeto artístico e seu papel e lugar na sociedade moderna que o grupo concretista, do qual a maioria deles fazia parte, já desenvolvia. O racha se deu ai, no plano conceitual, enquanto o grupo do rio, os neo-concretos, buscavam uma maior relação entre obra e vida, melhor, entre obra e vida singular, os concretista endureciam o discurso em torno de uma arte que se aglomerasse na sociedade industrial de então, uma arte que fosse utilizável, como um objeto artístico-industrial.
...
Um corpo outro. Prontamente perfurado. No risco eminente da morte, sempre, portanto percorrer os buracos. Como fundos. Fendas. Molhar os buracos. Olho oco selvagem. Planta mítica e vazia roçando no crânio sensual. Buraco que em volta se inscreve com carne, sangue e água nova, a areia nova, e, logo depois, o vazio novo. Ocos revestidos de desintegrações.
No fundo do tanque, o fibrocimento, a água, a sombra molhada. A projeção de um eu não-duplo, não é repetição, é experiência do olhar que não se ver num novo protótipo de espelho d’agua sensorial. Nova compreensão de uma suposta unidade. Suposição que se derrama e se afoga em pequenas ondas no fundo do tanque de fibrocimento. Outro, feito de reflexo-outro, água-outro, fibrocimento-outro. Vida receptiva se esvaindo, esvaziando, distanciando. Participação que dissipa dicotomia ativo-passivo. Participação-criação.
A insistência na palavra outro quer traçar e marcar uma tentativa de deslimite (ou de apropriação no/do limite arte-vida) sempre executada na obra de Hélio Oiticica.
...
Parangolé: vista uma parte irreconciliável do Rio de janeiro. Diáspora para sempre perdida no ar, no mar. Diáspora para sempre perdida no ar, no mar. Diáspora para sempre celebrando sua nova condição.
Nova condição: reinventar-se: celebrar o experimental. Imposição de uma nova mitologia.
A tentativa de re-fundar a África entre nós se deu no âmbito religioso-cultural (que era o âmbito próprio da cultura africana de então), mas o que acabou acontecendo foi a criação de uma religião-outro. Alguns africanos que eram da mesma etnia, mas de tribos diferentes, se juntaram e criaram o candomblé que nós conhecemos hoje. Lá, antes, em sua terra natal, cada tribo tinha seu próprio ritual e deus, aqui houve esta fusão-ruptura. Agora uma etnia inteira se junta e funda outra religião e mitologia. A tentativa é de manter as raízes, mas os acontecimentos se precipitam para a criação de novas garras simbólicas, culturais e religiosas. Por isso dizemos: Parte irreconciliável, diáspora perdida, mitologia nova, celebrativa e experimental, para ressaltar (e saltar) (n)o parangolé como ‘asa delta para o desejo’.
...
O fogo não destruiu nada, com o fogo tudo é trans-formado. Uma nova sensibilidade densa, sensual e quente nascerá.
Me parece que o mercado cultural e sua estrutura, que pensa a obra de arte como objeto comportado ou conformado, ou, no máximo, escandaloso, nunca interessou a Hélio Oiticica. Este não pode ser o nosso medo, que os projetos ligados ao mercado cultural se queimem todos. Devemos, antes, aproveitar o acontecimento, invadir as ruínas, como os dadaístas invadiam lixões (mas agora temos ruínas privilegiadas, novas e específicas, ruínas do incêndio de obras de arte), e tirar dali sustentações para novas experiências abissais.
Que o incêndio nos traga, enfim, novas formas para vestir, novas formas de vestir, novos corpos. Corpos que possam se auto-desterritorizar, possam ter a força de saberem ser: Fissura para a criação.